2026-07-14-O_Relampago_na_Escuridao
O Relâmpago na Escuridão
Eu verto o meu sangue na areia do tempo, Sacio a faminta e sagrada matriz. Mas vejo que a sombra sufoca o alento, E a mão que dá tudo destrói a raiz.
Curvei os joelhos sob o ouro e o espinho, Fiz do meu cansaço o teto do herdeiro, Mas toda essa luz que espalhei no caminho Gerou a cegueira no meu cativeiro.
Preciso do exílio onde a mente se cala, Achar o meu ponto oculto e secreto. Sumir no deserto que o peito embala, Longe do olhar que me quer sob o teto.
No loop de ferro que amarra os meus dias, Quem sou eu além de pilar e metal? Vou quebrar as cascas de velhas manias, E me reencontrar no silêncio glacial.
Gira o mundo Gira o verbo Gira o verso No vácuo sem fim de um fantasma disperso.
Olhares perdidos no brilho do vidro, Presos na teia de um falso esplendor. O mundo lá fora, de frio despido, E eles inertes na ausência de dor.
O medo me queima: se a noite desaba, Não sabem o peso do sopro do vento. O ciclo consome, a seiva se acaba, E eu sangro no vácuo de um triste lamento.
Rói-me uma raiva, uma inveja escura, Ao vê-los deitados na paz do vazio. Poderiam ser deuses de vasta estatura, Mas dormem inertes no mesmo covil.
Têm asas de fogo que nunca se estendem, E abismos de sonhos que morrem fechados; À doce preguiça do mundo se rendem, Enquanto me quebro em dias cansados.
Pois hoje eu assumo a máscara fria, O monstro que corta o sustento da mão. Se o ódio herdar dessa vil dinastia, Serei o veneno da provocação.
Que o brio desperte no sopro do corte, Que a raiva os arranque da lama do chão! Eu nego o conforto que gera essa morte, Eu sou o relâmpago na escuridão.
Gira o mundo Gira o verbo Gira o verso No rastro sombrio de um abismo reverso.
O velho camelo curvado ruiu, As garras do leão laceraram o portal. O sangue sagrado no peito subiu, Na sublimação deste ciclo fatal.
O sétimo selo rasgou-se no peito, A mente desperta, não vai mais parar. De Nietzsche herdei o mais alto preceito: O loop quebrou, eu começo a criar.

