2026-03-14-Rodar-ate-o-fim

Rodar-ate-o-fim


“Rodar até o fim”

Roda o homem, roda o servo, roda o tempo —

tempo vendido em pacotes de cimento,

correndo atrás do vento que chamam de meta,

rodando o eixo da máquina secreta.


O relógio mastiga o resto da alma,

cada volta uma dívida, cada meta uma palma,

aplaudem o suor, não o sentido,

o corpo mói, o riso é reprimido.


Pagam-me em horas o direito de viver,

mas cada hora me custa esquecer

que a roda gira e não me leva a lugar,

trabalhar pra não morrer, morrer pra continuar.


Hoje pedem cento e cinquenta voltas,

amanhã talvez duzentas, ou voltas revoltas,

fingem que é escolha, mas é destino,

a jaula dourada do trabalhador menino.


Sou peça, sou pedra no eixo girando,

sou o eco do grito que segue calando,

dizem: “rode mais, viva além da média”,

mas quem gira demais perde a própria tragédia.


Sou só ferramenta da fome sagrada,

rodo pra casa, volto pra nada,

a revolta existe, mas dorme escondida,

esperando um dia acordar — e dar vida.


E se o motor parar, o mundo implode,

se o servo decide, o império explode;

mas até lá sigo — consciente e mecânico —

rodando o teatro, o turno satânico.

"Buy Me A Coffee"

Written on February 9, 2026