2026-02-09-Uma-prisao-para-bebados

Uma prisão para bêbados

Este mundo cambaleante, de olhos semiabertos e copos cheios, me apareceu como uma prisão para bêbados.
As paredes eram feitas de distração, as grades, de costume.
Ali entendi que essa realidade, do jeito que eu a vivia, não era a verdade.
Era apenas um porão de almas sonolentas.
E então, dentro desse cárcere de gente tonta, uma fresta se abriu.


Vi um espaço de outra dimensão.


Não era um lugar fora de mim, era um lugar por dentro, como se o meu próprio corpo escondesse um portal secreto.
Debaixo do meu suvaco esquerdo, nasceu uma agarra de mão direita invertida – uma agarra impossível, como aquelas que só existem nas vias que a gente sonha escalar.
Ela brilhava silenciosa, me chamando.
Quando eu a segurava, eu não subia para fora, eu descia para dentro.
Era ali, no avesso da axila, que eu descobri um refúgio: um lugar seguro de ficar em mim.


Nesse mergulho, encontrei dois santuários.


O primeiro: uma caverna no alto da montanha.
Lá em cima, o ar era fino, e o mundo, pequeno.
As vozes da cidade não chegavam, o dinheiro não gritava, as urgências perdiam o prazo.
Eu entrava, sentava na escuridão fresca, e da abertura da caverna via o horizonte inteiro respirar.
Era o meu eremitério, minha varanda suspensa sobre o ruído.


O segundo: a agarra 4D debaixo do suvaco esquerdo.
Para entrar, bastava inverter a mão direita e encostá-la na minha axila mental, como se eu encaixasse os dedos numa fenda invisível do próprio ser.
Assim que atravessava, tudo ficava azul.
Um azul profundo, calmo, de fim de tarde eterna.
Ali dentro havia sofás macios, absurdamente confortáveis, como se o universo tivesse decidido me oferecer, por um instante, uma sala de estar dentro do peito.
Eu me sentava, respirava, e lembrava que era possível existir sem correr.


Entre a caverna e a agarra, formei o meu mapa de fuga.
Dois esconderijos: um no alto do mundo, outro nas dobras do corpo.
Dois endereços para quando o loop chamasse de novo.


Porque o loop sempre chama.
Ele fala a língua do dinheiro, oferece coleiras brilhantes, contratos polidos, promessas de segurança que cheiram a cela.
Eu o reconheci: um círculo vicioso onde o dinheiro é dono, e eu, um cachorro bem treinado.
Acordei com uma frase ardendo:
preciso parar de deixar o dinheiro ser o meu dono.
Preciso parar de deixá-lo me adestrar.
Preciso aprender a pensar por mim, antes que esqueça minha própria voz.


Nesse clarão, uma outra verdade me atravessou, simples e indiscutível como o choro de uma criança:
eu preciso dar mais atenção aos meus filhos.
No meio de visões, montanhas e portais azuis, o chamado mais sagrado era um só: estar presente.
Olhar nos olhos pequenos que me esperam.
Descer do pedestal do meu próprio drama e sentar no chão para brincar.
Talvez a maior cerimônia da minha vida seja a de ouvir seus “papai” cotidianos.


Enquanto tudo isso acontecia, senti um funeral silencioso dentro de mim.
O eu velho, cansado de fingir que estava tudo bem, começou a morrer.
Morreram com ele as desculpas, o orgulho de se achar autônomo, a ilusão de que eu trabalhava apenas para mim.
No lugar desse cadáver de hábitos, um eu novo começou a nascer.
Ainda frágil, ainda tateando, mas decidido a caminhar diferente.


Foi então que Ele chegou.


Jesus não veio com raios, trombetas ou discursos.
Veio como quem senta ao meu lado no sofá azul do espaço interno, olha para a carga nos meus ombros e diz, sem alarde:
“Me dá.”
E eu percebi o quanto pesava o que eu carregava.
Culpa, expectativa, medo de falhar, medo de não prover, medo de desapontar.
Peso antigo, heranças invisíveis.
Ele estendeu as mãos, e eu lembrei:
não era eu o dono desse corpo, nem da missão, nem dos resultados.


O Senhor me alugou este corpo por um tempo.
Não é propriedade, é empréstimo.
Trabalho para Ele em tempo integral, mesmo quando esqueço, mesmo quando corro atrás de outra coisa.
Minha função, no fim, é simples e impossível ao mesmo tempo: servi-Lo e servir meus irmãos com o melhor que eu conseguir ser.


Saí da visão sabendo que carrego, agora, dois lugares seguros:
a caverna no alto da montanha, onde o mundo fica pequeno,
e a agarra 4D debaixo do suvaco esquerdo, onde o mundo desaparece num azul de descanso.


Entre um e outro, caminha esse novo eu que nasce:
menos bêbado de ilusões,
menos adestrado pelo dinheiro,
mais atento aos filhos,
mais consciente de que vive alugado pela Graça.


E, quando o loop tentar me tomar de volta, saberei o caminho:
subo a montanha ou entro pela agarra,
sento no sofá azul,
solto a carga nas mãos de Jesus,
e relembro quem eu vim servir.

"Buy Me A Coffee"

Written on February 9, 2026