2026-01-22-Veu-em-Cinzas-O-Homem-que-Abriu-os-Olhos
Véu em Cinzas: O Homem que Abriu os Olhos
Nigredo desce como noite que não termina,
peso morto que curva o que foi homem,
e o grito sai quebrado: senhor,
por quê este breu fundo no peito,
este nome que não é meu.
As veias abrem pus,
ácido ferve no vazio que servimos devagar,
rói osso por osso a morte lenta,
unhas cravadas na própria carne viva onde a bile sobe negra,
tendões crepitam em chamas que ninguém vê.
Rasgo gutural onde as costelas nu ficam expostas,
ódio forja punhal no nada,
no vácuo que ama e mata,
e o cosmos lambe o fumo da quebra,
sujo, impreciso, sem nomes que prendam.
Cinza e lodo descem em uivos sem conta, sem fim,
farpas que rasgam alma em brasas frias,
espinhos adão que envenenam a jaula onde o velho eu apodreceu lentamente,
nome some, desaparece no sol negro que engole tudo,
sangue do parto onde o véu se rasga em tiras úmidas.
Abismo torcido de glória e luto fundidos,
peso que sangra ainda, soberano nu,
criança e rei ao mesmo tempo,
chama que urra infinita dentro do peito humano que ainda treme,
ainda sente, ainda dói como deve.
E a cicatriz grava nos ossos:
o dia em que o mundo ajoelhou,
nas ruínas, o livre rei desperta sem nome.

